Crítica IT: A coisa

Por que Invocação do mal se destaca como um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos? São três as respostas: direção, história e personagens. É um diretor que sabe conduzir um filme e que entende a história que está contando, uma história genuinamente interessante e protagonizada por personagens bem escritos e realmente dignos da nossa preocupação.

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It, a coisa, trilha esse caminho, entretanto há uma ligeira diferenciação entre os dois filmes: It é bem menos um filme de terror e muito mais um filme de amizade. Entre clássicos baseados na obra de Stephen King, que escreveu o volumoso livro It, a película lembra muito mais um Conta comigo com um contexto sobrenatural.

A trama se passa no estado de Maine, numa cidadezinha chamada Derry. Um ano após a perda do irmão George, Billy ainda mantém esperanças de poder encontra-lo. Entretanto, nem ele, nem seus amigos, que formam o grupo dos perdedores, imaginam que o que pegou George e outras crianças, seja a criatura Pennywise, o palhaço dançarino – uma entidade que assusta as crianças, para depois devorar a elas e o medo que as atinge.

O livro que originou a trama é um dos mais longos livros do Stephen King e o filme contempla apenas uma parte da trama, fazendo algumas alterações e invertendo algumas situações. O livro intercala a vida do grupo dos perdedores quando mais jovens com a vida deles de quando são adultos, já o filme usa apenas a parte das crianças – o que ao meu ver foi a melhor decisão do filme, afinal, do contrário, a história poderia ficar abarrotada demais.

Apesar do filme ter bons sustos e boas sequências que prendem, o longa não tem sua força nessa parte, ainda mais por conta dos efeitos digitais e excessiva trilha sonora, ambos distraindo demais quando aparecem – e aparecem excessivamente. A força de It vem do fator humano, da boa atuação das crianças (ao menos da maioria) e da direção de Andy Muschietti. Ao contrário da minissérie baseada no livro, que tem como único bom fator a atuação do Tim Curry, esse novo It assusta (ao menos as vezes) quando precisa assustar, nos encanta despretensiosamente e é mais climático que todos os múltiplos finais do Retorno do Rei juntos – brincadeiras à parte, o discurso final de Richie Tozier (Finn Wolfhard de Stranger Things) me deu vontade de berrar no cinema como se eu fosse um figurante de Coração Valente.

Não posso esquecer de Pennywise e Henry Bowers, os vilões do filme. Ambos cumprem, e muito bem, o papel. Apesar de ainda ser um bom Pennywise, o desse filme não é tão bom quanto Tim Curry e é atrapalhado pelos modelos digitais que o substituem – em uma cena, ele sai de uma geladeira todo contorcido e preferiram usar CGI na cena, que seria mais impactante se fosse de forma prática. Já Henry Bowers, que me trouxe temores as vezes maiores do que os proporcionados pelo palhaço, é um digno valentão que se é visto na maioria dos livros de King – inclusive, Nicholas Hamilton lembra bastante Kiefer Sutherland em Conta Comigo e, mais ao fim, vira uma um jovem Jack Nicholson em o iluminado.

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O filme às vezes peca com sua burocracia, como quando expõe demais o medo das crianças e suas situações envolvendo Pennywise, entretanto a história não perde força ou ritmo. E mesmo ele viajando entre gêneros, tentando as vezes ser um terror, outras horas um terrir e muitas vezes um delicioso drama com crianças, o filme nunca parece desconjuntado. Outra vez ponto para Muschietti, que sabe filmar tanto o braço de uma criança sendo decepado, como apenas os olhos de um gordinho encantado com a garota que acabou de conhecer, posicionando a capa de um anuário frente a metade do seu rosto para que vejamos apenas o que interessa – detalhe para quando o anuário sai da frente e vemos então a boca aberta do rapaz (é o tipo de cena doce e engraçada que não se vê todo dia).

Para os fãs do livro (eu incluso), há menções a um crucial personagem que deve aparecer no segundo filme e também indícios da origem não sobrenatural do Palhaço dançarino, então fiquem despreocupados (ou muito preocupados), porque a continuação respeitará os elementos finais da trama. Inclusive, prestem atenção a um livro que Beverly guarda em seu quarto e que indica o futuro de Bem e que premedita uma cena no clímax do filme.

Esse It não é apenas um bom filme e uma boa adaptação como, ao meu ver, é o melhor filme e adaptação que o livro It poderia receber. Talvez a pior parte é agora esperar pelo segundo filme.

Texto: Anderson Soares

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